segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Queridos habitantes da Terra,

Queridos habitantes da Terra providos de razão, estamos falhando!
Somos de fato impressionantemente habilidosos. De uma espécie animal em balanço com as demais, evoluímos a ponto de sozinhos nos espalhar e povoar o mundo inteiro! Eu sei que foi difícil, mas nossa habilidade de raciocínio e senso de sociedade nos possibilitaram enfrentar as adversidades, amedrontar animais volumosos e conquistar o mundo! Nós conquistamos o mundo! E então modelamos sociedades que todos os dias se empenham em reafirmar o ego de uns e cuspir na cara de outros. Construímos algo tão magnificamente peculiar que nos permite esquecer o que somos e onde estamos.
Queridos habitantes da Terra providos de razão, somos só mais um macaco. Quem vocês pensam que são?
Eu não estou por nem um segundo desmerecendo a nossa espécie. Ela é linda! Mas, vamos com calma e pensemos: o que pensaríamos dos Leões se estes saíssem da Savana comendo todos os animais que eles vissem pela frente? Acabando, assim, com tudo? Seria um tanto monstruoso, não? Queridos humanos, com todo respeito, fazemos isso há milhares de anos. É por isso que somos tantos e temidos no Reino Animal. Já repararam como os animais selvagens nos olham? Eles não gostam de nós. Somos, e de fato somos, ameaça.
No entanto, por mais habilidosos que sejamos, qual será o fim disso? Queremos reinar sozinhos um mundo devastado? Eu sei, você não vai viver para ver isso! Nem nossos filhos irão. Talvez assinar um decreto extinguindo a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca) irá trazer benefícios econômicos para uns. Os mesmos que não estarão aqui para assistir o show não poder continuar. Por quê não, então?
Queridos habitantes pensantes, estamos falhando porque não sabemos usar nossas habilidades racionais imaculadas de avareza. Porque não estamos comprometidos com nossa existência no mundo, que é tão mais além do que gerar dinheiro e conforto próprio. O problema não é o dinheiro, é o caminho escolhido para colhê-lo. O problema é a falta de senso de coletividade em um mundo que construímos para funcionar em sociedade.
Queridos habitantes, é tão difícil enxergar que essa Terra não vai sobreviver banhada a concreto? Você também não, porque ela vem primeiro. Essa é a ordem!
Queridos habitantes de sorte, e se fossem vocês que precisassem andar sete, ou dez, ou mais quilômetros para buscar água suja para poder beber? O que vocês achariam daqueles que abrem a torneira para cantar?
Queridos privilegiados, é com vocês que eu falo. São vocês que tem saúde, instrução e poder para dizer não! Não desperdicem a nossa capacidade pensante em uma existência medíocre ou, menos ainda, daninha. A usem para entender que sozinhos teríamos morrido no primeiro passo à povoação da Terra. Pois, se é em sociedade que conseguimos ser fortes, honrem isso todos os dias. Olhem para as outras pessoas, não destruam ou permitam destruir ainda mais a natureza. Do contrário, honrem aquela que nos permitiu pensar, evoluir e conquistar o mundo, fazendo isso do jeito certo. Sejam como as árvores, que se agigantam e permitem a vida dos pequenos animais que a cercam.
Por sorte, a vida não para na nossa existência. É de bom tom deixar a casa limpa antes dos novos moradores entrar.
#todospelaamazonia

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Eu estou falando de terrorismo


O ódio é um poderoso inconsistente. É como a bomba (coincidência ou não) que explode, injuria e morre. Não perdura, não renasce, é minoria. Às vezes, um ódio se esbarra em outro. Se sentem fortes. Às vezes, de fato, ficam mais fortes. Causam o mal e se esvaem. O ápice do ódio é o seu fim. É quando se expõe - ao máximo - que morre.
Não, a gente não espalha ódio. No máximo, se incentiva quem já o sente a ter coragem para exprimi-lo. Conquanto, não acredito no renascimento do ódio.
O ódio é pessoal. É particular de cada vivência, experiência, essência. É personalíssimo. Essa é a minha opinião. Todos sabem o que o ódio é, mas cada um tem a sua própria fonte geradora.
O amor, não. O amor é universal, se compartilha, se planta e colhe, não se esgota, não morre. Renasce sempre e sempre. É infinito, acolhedor e muda os ventos, cores e cheiros do mundo.
Veja-se, quando o ódio explode, esgotando-se enfim, em uma medida imensamente maior que aquela em que ele compromete outras pessoas a senti-lo, ele instantaneamente provoca compaixão aos por ele vitimados. Compaixão é a dor que sente o amor. É amor. Vira amor, pois.
É por isso que não temos o que temer, o ódio passou pela história, mas ele nunca criou raiz. Já o amor, enraizado até o núcleo do mundo, nunca nos abandonou.
Isso não significa assistir complacente, mas agir com fé e amor. Fazer passar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sangue Nostro!


Cresci em uma família italiana que há mais de cem anos mora no Brasil.
Cresci vendo meu avô tomar vinho, como que quem toma porções líquidas de vida, todos os dias.
Cresci com um pé de uva no terraço da casa dele, algo extraordinário para uma casa no centro da cidade, e com a minha avó acentuando o “r” enquanto tornava os domingos um ritual de família em que a homenageada era a boa comida.
Cresci ouvindo Gianni Morandi, Nico Fidenco, Rita Pavone, Lucio Dalla e Laura Pausini na sala de casa. Dormindo em reuniões da instituição italiana da qual meu pai fazia parte, assistindo “RAI”, perdendo meus pais alguns meses para a Itália, recebendo um doce casal de “amici italiani” em casa e esperando pelo queijo parmesão que eles sempre traziam!
Vivenciei essas experiências de forma natural e espontânea, sem notar elas se enraizarem em mim.
Em setembro passado visitei a Itália pela primeira vez, fui recebida de braços e coração aberto por uma doce e amável família. Nessa oportunidade, vivendo o cotidiano italiano, eu entendi o significado daquelas raízes. Reconheci os meus. Mais que isso: eu os compreendi. E os vi em mim.
É bonito enxergar a força da tradição cultural, que não se rompe nem após cem anos de fluência do sangue fora do seu país de origem. É bonito se encontrar, se reconhecer e deixar-se acolher.
Não é só uma questão de sangue, talvez este seja o ponto minoritário. É uma questão de entender a sua construção e, daí, entender a dos outros!
A importância da preservação das tradições culturais está em contar para você a sua história. Permitir o autoconhecimento. Está em contar a sua história para o mundo. Solidificar todas as existências que o trouxeram aqui, onde a vida ainda flui. Possibilita olhar para si e enxergar o mundo todo. Daí, nasce a empatia que faz mais milagres que o moralmente e obrigacional respeito. E isso é mais que belo, é poético! Afinal, nenhum povo toca o mundo sozinho.
E, veja, eu nasci no Brasil cercada das tradições dos meus familiares italianos, com amigos de família alemã, portuguesa, espanhola, africana e indígena, também cercados cada qual com suas ricas tradições. Crescemos todos no mesmo solo e o Brasil continua o Brasil! Permanece com sua identidade própria. Apenas ganhou mais graça, histórias e diversidade. Continua uno, pleno, autônomo!
Que sorte a minha que a terra das palmeiras acolheu os meus imigrantes. Sou afortunada por dividir minhas raízes com aqueles que abraçaram-na (ainda que nas condições que sabemos que o foi).

Quem dera, hoje, todos tivessem a mesma sorte! Se o meu sangue atravessou o mar e continuou a fluir em outro continente, foi porque nos deixaram entrar.

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Meu avô em visita à casa em que seu pai morou antes de embarcar para o Brasil, em Brugine, Padova, Itália.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

"E aí, como anda a humanidade?"


Imagine uma pessoa que se ausentou do mundo e das notícias que pairam na terra por pouco mais de um ano e agora decidiu se atualizar.

Abre os noticiários.

Lê sobre como anda a guerra civil na Síria. Se sensibiliza com vídeos de crianças com semblante sério, sobre o qual escorre sangue. Elas estão mais firmes que os seus adultos. Isso preocupa.

Eleições nos Estados Unidos.

Não compreende como um candidato que pautou seus discursos em ódio e segregação racial venceu as eleições na mais influente nação do mundo.

Estupro coletivo.

“Impeachment!”.

Falta de representatividade nos ministérios de Temer.

Falta de representatividade nos ministérios de Trump.

“Sessenta presidiários mortos”.

Pessoas violentadas em razão de suas opções sexuais.

“Massacre em Boate de Orlando”.

Anúncio da decisão pela construção de muro na fronteira entre Estados Unidos e México.

A liberdade de ir e vir intitulada de “bagunça horrível”.

Carro bomba.

Homem bomba.

Bomba!

Nas redes sociais:

“Ninguém mandou sair de casa com essas roupas”.

“Bandido bom, é bandido morto”.

“Leva pra casa! Quero ver quando um menor matar alguém de sua família”.

“AVC é castigo”.

E desligou o computador.

“Por quê?”, se perguntou.

Por quê? Porque o ódio está nas entrelinhas, nos discursos, nas relações. É alimento da infelicidade, do insucesso, da incompreensão. É amigo da preguiça em compreender. Da comodidade de se render ao sentimento primário.

O ódio está em cultivar o “pré-juízo”.

Ódio é passividade. E veja como, e quanto, causa má atividade.

Às vezes é um problema de educação e má instrução.

Às vezes, sim, é mau coração!

O problema é maior quando desse extrato saem líderes de nação. E quando a gente se engana disfarçando uma “revolução”.

As consequências estão aí: milhares de anos de humanidade, mesclando evolução e regressão.

Ou se educa para aniquilar o ódio provindo da má instrução.

Ou a inércia dará força, representatividade e credibilidade para aqueles em que o desvio está no coração.

Letícia Marcati, 30 de janeiro de 2017.

Poetas com talento para música



Somos a Terra da Cajuína, da Carnavália, do samba de uma nota só, da garota de Ipanema e da Maria. Somos a Terra de Caetano, Elis, Chico, Marisa, Vinicius, Tom, Gilberto. 

Somos a terra de poetas com talento para música. 

Somos a terra da diversidade. De gente do mundo inteiro fazendo a gente de um país. E, assim mesmo, somos únicos. Somos nós, brasileiros. Somos a terra não só da Bossa Nova, do Samba, vanerão, baião, choro, maracatu, mas também do funk, do axé, do sertanejo de raíz e do universitário. Somos temporariamente a terra do “deu onda”, fomos a do “camaro amarelo” e do “lepo lepo”. 

Somos diversificados, faz parte e é bonita a nossa pluralidade. Mas, por favor, não se esqueçam dos poetas que tinham talento para música. Eles nos enriquecem a alma. É a nossa cultura em rica prosa e composição. Eles nos elevam, mostram a beleza e nos doutrinam nobremente compartilhando genialidade. 

Que a nossa música seja associada aos poetas que tinham talento para música e pelos que terão.

Letícia Marcati, 08 de janeiro de 2017.

"Saia da casca do ovo", ele disse.


Um dia meu pai me disse que era preciso "sair da casca do ovo". Abracei o recado, sem dar muita importância devido à imaturidade da época. Outro dia ele repetiu isso. E repetiu outra vez. E outra. Ele não dizia isso só para mim. Ele é educador, dizia para o filho dos outros e eu estava ouvindo também. Fiquei com isso na cabeça.

Fui para a faculdade. Cinco anos incríveis de conhecimento (e autoconhecimento) se passaram. E todo ano eu me perguntava onde eu estava? Dentro ou fora do ovo?
Eu achava que sair de lá era ser independente. Não era só isso.

Fui morar em outro país sozinha. Após alguns meses, em complemento à jornada que iniciei na faculdade, comecei a entender.

A casca do ovo consiste na nossa percepção do mundo. Cada um tem a sua, baseada em suas vivências. Sair da casca é olhar a vida de outra perspectiva. É sair de uma casca para, talvez, entrar em outra. É o autoconhecimento e a expansão do olhar. Isso porque a tal casca de ovo, sobre a qual meu pai me alertou, é a aglomeração de nossos medos e inseguranças, mas, sobretudo, o que faz a junção desses elementos e formação da rigidez deste envoltório é a ignorância e o conforto que se sente com aquilo que desconhece. É medo, preconceito e julgamento parcial.

Não é fácil sair de lá. É basicamente um autoatentado. Lutar contra nós mesmos. Contra aquilo que a nossa mente, e seu instinto protetor, um dia achou importante relevar, sobressaltar, preservar, solidificar. Contudo, mesmo sem entender muito bem “por que” deveria fazer isso, confiei no conselho de meu pai e comecei a martelar minha casca.
Quando se olha para fora percebemos que o mundo só é grande de tamanho. Que as pessoas são iguais em todos os lugares e que é diferente ler isso de perceber isso com os próprios olhos, ouvidos e emoções. É que na verdade as pessoas parecem ser muito diferentes umas das outras quando você não as compreende. E a cultura que as distingue é um fator bloqueador dessa compreensão. Por óbvio, cada um com suas particularidades físicas e emocionais são seres únicos, mas as particularidades são detalhes. Não me refiro a elas. Emergir na cultura alheia, ou ao menos não resistir a ela, abre a porta para se conectar com aquele que “vive em outro mundo”. É o início da empatia. E a casca do ovo é um fator limitante de empatia, pois limita-nos a somente senti-la com aqueles que compartilham das mesmas ou semelhantes dores e inseguranças no material compositor da casca.

Então, quando olhei pela primeira vez fora da minha casquinha eu entendi verdadeiramente a importância da luta pela preservação dos direitos, coisa que em cinco anos na faculdade de direito eu fui preparada para compreender, mas não compreendi de fato. Entendi que sair do conforto e proteção que o desconhecimento, ou ilusão de conhecimento, nos proporciona é entender que o mundo precisa de pessoas empáticas, e conscientes de que a vida aqui é em sociedade, liderando as relações políticas e influenciando os demais a seguir o mesmo caminho. Por quê? Porque no final só há duas finalidades para a casca do ovo: secar ou adubar. Nesta segunda é que ela irá renascer sempre e sempre no fortalecimento da ideia de progresso.

Letícia Marcati, 27 de setembro de 2016.

A terra dos impeachments


No hemisfério norte, David Cameron, cumprindo promessa política, ofereceu ao povo britânico o poder de escolher sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Declarou-se contra a segregação dos blocos. O povo votou pela saída. Cumprido o seu propósito frente ao parlamento britânico e por sua posição contrária à decisão em plebiscito, entendendo-se não competente para dar continuidade à gestão do cargo, saiu de cena e deu oportunidade para alguém mais competente, à regularização do novo cenário, entrar. Theresa May, também a favor da permanência do Reino Unido no bloco europeu, assumiu a liderança do parlamento, aceitando a decisão do povo e prometendo trabalhar para solucionar a separação da melhor forma possível.

No hemisfério sul, encerrou-se um longo processo estrelado pela oposição ao governo Dilma em que aquela finalmente saiu “vitoriosa”. Desde o seu início, o processo de impeachment presidencial já tinha resultado definido. O julgamento em si não tratou da apreciação de mérito, apenas formalidades para satisfazer o jogo político (esperamos, tolamente, que esse jogo não seja constituído por interesses pessoais dos jogadores). O foco nunca foi o bem da nação. Não se prezou a democracia. O objetivo era único: tirar o PT do poder para reabastecer a liderança do governo. Foi feito. Num estralar de dedos a oposição virou situação.

É certo que nenhum impeachment merece ser motivo de orgulho ou comemoração: é o contrário. Contudo, além das preocupações e pesares de praxe, este processo traz consigo as preocupações referentes à ausência de imposição do preenchimento dos requisitos do impeachment. Trocando em miúdos, o afastamento se deu exclusivamente por questões de interesse político. Veja-se bem: descartou-se a decisão do povo porque esta (a presidente democraticamente eleita) não tinha mais governabilidade, porque as alianças políticas, muitas vezes domadas por interesses pessoais, se moveram e tomaram outra forma.
Assim, um indivíduo ficha suja, que não poderia se tornar presidente de outra forma, tornou-se. A democracia brasileira, uma vez mais, levou um soco no estômago.

Talvez, por sofrer ao assistir as atrocidades decorrentes de uma política movida a interesses não nobres e que não se encaixam na essência democrática, assistir ao “Brexit”, ainda que discordando de seu resultado, gerou-me certo encantamento por essa citada particularidade da política britânica. Gostaria de assisti-la no Brasil: políticos que lutam para dar voz ao povo e, após ouvi-lo, fazer o melhor pela decisão democraticamente fixada.
Falta muito. Ainda usa-se Deus e família para motivar as decisões políticas nessas terras, reforçando a ideia sobre a visão política torta e egoísta que predomina no Congresso Nacional. Ainda acha-se que a solução é simples, basta tirar fulano do poder, é corrupto! Como se o cicrano não o fosse. Que se aprenda com o erro e ao menos se reflita sobre os males de confrontar a democracia em prol de uma solução simplista, certamente ineficaz. Quando a democracia é enfraquecida perde-se muito, de qualquer forma.

Até lá, continuamos utópicos, esperançosos, pensantes, falantes, críticos, sobretudo autocríticos, pois que não esqueçamos se tratar o parlamento democrático de um substrato do seu povo. Sabemos que sempre haverá insatisfeitos em uma sociedade, não se exige perfeição, mas que, minimamente, não se deixe faltar o básico e que a voz final seja sempre a da maioria.

Letícia Marcati, 06 de setembro de 2016.